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Morre, aos 96 anos, Irmã Edwiges, uma das principais colunas espirituais e afetivas de Ibiá

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O falecimento da religiosa deixa a comunidade em profundo silêncio e desperta uma onda de gratidão por sua caminhada histórica no município.


Irmã Edwiges em missão na cidade de Patos de Minas. Imagem: Fernando Gomide.
Irmã Edwiges em missão na cidade de Patos de Minas. Imagem: Fernando Gomide.

A manhã em Ibiá amanheceu com um peso diferente na atmosfera. O silêncio que se instalou pelas ruas da cidade não era um vazio comum, mas o sentimento partilhado de um coração comunitário que, de repente, se viu mais apertado. O falecimento da Irmã Edwiges, aos 96 anos, representa a perda de uma das colunas mais sólidas da história espiritual e afetiva do município.


Integrante da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora das Dores, ela ultrapassou em muito as formalidades do hábito religioso. Para a população local, a freira representava o ponto de encontro da sabedoria, o amparo nos momentos de incerteza e o sorriso que atravessou décadas confortando famílias. Longe de se limitar aos votos e clausuras, ela transformou o ensinamento religioso em uma prática viva, tornando-se uma verdadeira figura materna para milhares de ibiaenses.


A trajetória de dedicação começou a se desenhar de forma marcante na década de 1960. Já instalada no tradicional Colégio São José, a religiosa coordenava com profundo zelo o aprendizado inicial da fé para as crianças, preparando as novas gerações para a Primeira Eucaristia. Sob sua liderança, grupos como a Infância Missionária e a Liga dos Pequenos de São Tarcísio ganharam vida. Naquele período, embora o ensino de religião ocorresse nas salas de aula pelas mãos dos professores regulares, as freiras do colégio insistiam em ir além. Aos domingos, cruzavam os caminhos do município para convidar pessoalmente os jovens a frequentarem as capelas, onde se ensinavam cantos, histórias e orações.


Uma das marcas mais lúdicas e inesquecíveis de sua atuação se concentrou no bairro São Dimas. No início de cada tarde dominical, a rotina dos moradores era preenchida pelo som característico de uma sineta que a Irmã Edwiges tocava de rua em rua. O barulho era o sinal esperado pelas crianças, que corriam ao seu encontro na capela comunitária. O espaço se transformava em um ambiente de celebração, música e brincadeiras. Ao final de cada reunião, os pequenos eram presenteados com pirulitos e pequenas estampas de santos, criando memórias que marcaram a infância de muitos adultos de hoje. Para dar conta de tantas atividades, ela contava com o auxílio fundamental das estudantes internas do colégio.


O olhar atencioso da religiosa também se estendia às estruturas familiares. Uma vez por semana, o Clube das Mães reunia as mulheres do bairro São Dimas. Naquelas reuniões, com o suporte de voluntárias locais, a Irmã Edwiges oferecia conselhos práticos e apoio moral sobre a criação dos filhos e a condução do lar fundamentada nos valores cristãos.


A partir de 1979, com as novas diretrizes que implementaram o Ensino Religioso na rede pública de ensino, a atuação da freira ganhou uma escala ainda maior. Atendendo a um pedido direto do Padre Pedro César, ela passou a ser a principal mentora dos professores estaduais e municipais. A Irmã Edwiges liderava reuniões semanais de orientação e viajava constantemente acompanhando os docentes em cursos de aperfeiçoamento promovidos pela Superintendência de Ensino nas cidades de Uberaba e Araxá.


Anos mais tarde, quando a disciplina foi retirada da grade curricular das escolas públicas, ela concentrou todas as suas energias na estruturação da catequese paroquial. Reuniu um grupo de colaboradoras voluntárias e deu início a um projeto que se expandia a cada ciclo. Buscando sempre a excelência, conduzia suas equipes até Patos de Minas para formações promovidas pela Diocese. Na Igreja Matriz, era a mente e o coração por trás da Missa das Crianças, realizada nas manhãs de sábado. Com enorme criatividade, chegou a confeccionar manualmente os instrumentos musicais que os próprios jovens utilizavam para formar o coral litúrgico.


Mesmo após deixar as funções oficiais de coordenação por conta do avanço da idade, ela se recusou a se aposentar do serviço comunitário. Continuou atuando como professora de base e, em seu último ciclo de atuação pedagógica, levou sua paciência característica para as salas de aula da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, a APAE, deixando ali sua última grande lição de inclusão e amor.


Irmã Edwiges recebendo a Medalha dos 100 anos de Ibiá. Imagem: Câmara Municipal de Ibiá.
Irmã Edwiges recebendo a Medalha dos 100 anos de Ibiá. Imagem: Câmara Municipal de Ibiá.

O reconhecimento oficial ao trabalho incansável da religiosa ficou eternizado no âmbito civil em agosto de 2025, quando a Câmara Municipal de Ibiá realizou a entrega da Medalha dos 100 anos de Ibiá para a Irmã Edwiges. Essa honraria, que representa a mais alta comenda concedida pelo Legislativo municipal, foi instituída em decorrência do centenário da cidade para condecorar personalidades e instituições que se destacaram por serviços de extrema relevância prestados ao município. A homenagem celebrou, muito além de uma data ou de um título honorífico, a profunda e histórica contribuição da freira para o desenvolvimento educacional, humano e espiritual de toda a comunidade ibiaense.


Em nota oficial, a Diocese de Patos de Minas manifestou o seu pesar e solidariedade, pedindo que a comunidade se una em orações. Leia a seguir a Nota emitida pela Diocese.


“A Diocese de Patos de Minas comunica, com pesar, ao Clero e todo o povo de Deus, o falecimento da Irmã Edwiges, religiosa da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora das Dores, em Ibiá/MG. Rezemos pedindo a intercessão de Maria, para que a acompanhe à morada celeste, onde ela contemplará o rosto d’Aquele a quem tanto amou e serviu na terra. Em nome de Dom Frei Claudio Nori Sturm e de todos os fiéis da Diocese de Patos de Minas, manifestamos aos familiares e amigos, que vivem a dor da separação, a nossa proximidade unidos na oração e na solidariedade fraterna,” comunicou a Diocese.
Irmã Edwiges ao lado do Padre Fernando em missão em Patos de Minas.
Irmã Edwiges ao lado do Padre Fernando em missão em Patos de Minas.

A dor da perda que hoje atinge a comunidade local convive com um profundo sentimento de gratidão coletiva. O falecimento encerra um capítulo longo e luminoso, mas a história construída pela religiosa permanece definitivamente integrada à identidade e à memória de Ibiá.


Detalhes das Cerimônias de Despedida


  • Local do Velório: Igreja Matriz São Pedro de Alcântara, em Ibiá.

  • Horário de Início: 10h30.

  • Missa de Corpo Presente: Celebrada às 19h, na própria Igreja Matriz.

  • Sepultamento: O féretro seguirá para a cidade de Belo Horizonte, onde ocorrerá o sepultamento final.


Nota de homenagem do Ibiá em Foco


O Ibiá em Foco manifesta seu profundo respeito e eterna gratidão à memória de Irmã Edwiges, cuja trajetória se mistura à própria identidade de nossa terra. Perder uma referência desse porte nos traz uma tristeza profunda, mas nos conforta saber que cada badalar de sino, cada sorriso infantil nas capelas e cada lição de cidadania deixada por ela continuará viva na memória de nosso povo. Diante desta despedida, expressamos nossa total solidariedade aos familiares, às companheiras de congregação e a todos os ibiaenses que, assim como nós, hoje sentem a dor dessa ausência. Que o seu exemplo de bondade permaneça como uma luz permanente a guiar o futuro de Ibiá. 

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