A chave para a Presidência: vencer em Minas Gerais se torna regra na política nacional
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Candidato mais votado no estado venceu todas as eleições desde 1998; especialista relativiza máxima, mas reconhece que território mineiro funciona como retrato do país.

Nos bastidores da política brasileira, uma crença se consolidou ao longo das últimas décadas: vencer as eleições presidenciais exige, antes de tudo, conquistar a maioria dos votos em Minas Gerais. O que começou como uma observação empírica transformou-se em máxima repetida por estrategistas e candidatos, alimentada por um fato incontornável. Desde 1998, ano mais remoto com dados disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral, o candidato que obteve mais votos no estado mineiro nunca perdeu a disputa pela Presidência da República.
Em pleitos acirrados como os de 2014, 2018 e 2022, os percentuais de votos recebidos pelo presidente eleito no Brasil e em Minas Gerais foram surpreendentemente próximos. Essa coincidência elevou o estado à condição de termômetro nacional, transformando cada campanha em uma batalha específica pelo coração do eleitorado mineiro. Pré-candidatos e seus articuladores já dedicam tempo e recursos à construção de alianças locais, à escolha de palanques fortes e à capilarização de suas mensagens nas 853 cidades mineiras.
Mas a máxima resistiria a um escrutínio mais rigoroso? O cientista político Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais, oferece uma resposta cautelosa. Para ele, não há qualquer fundamento científico na afirmação. Trata-se de uma coincidência histórica que pode ser desmentida já na próxima eleição.
Ainda assim, Ranulfo reconhece que Minas Gerais ocupa um lugar singular no mapa político brasileiro. O estado faz divisa com outras seis unidades da federação e abriga realidades regionais tão diversas que, somadas, espelham o próprio país. O Nordeste mineiro, com o Vale do Jequitinhonha, guarda fortes semelhanças com o Nordeste brasileiro. O Sul do estado recebe influência direta de São Paulo, enquanto a Zona da Mata se aproxima do Rio de Janeiro. Já o Triângulo Mineiro dialoga com Brasília e Goiás.
Minas Gerais seria, nessa leitura, um microcosmos do Brasil. Tem um pouco do Sudeste, um pouco do Centro-Oeste e um pouco do Nordeste, resume o especialista.
Outro fator de peso é a ausência de centralidade política na capital. Belo Horizonte não costuma definir o resultado eleitoral mineiro. O estado é pulverizado, com dezenas de municípios de médio porte e regiões que se orientam por polos econômicos e culturais diversos, muitas vezes localizados em outros estados. Essa descentralização torna Minas mais parecido com o Brasil como um todo do que estados como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde a capital concentra grande parte da vida política e econômica.
Os números reforçam a tese da semelhança. O Índice de Desenvolvimento Humano de Minas Gerais é de 0,774, muito próximo ao índice nacional de 0,786. Os dados raciais também se alinham: enquanto 45,3% dos brasileiros se declaram pardos, 43,5% brancos e 10,2% pretos, em Minas os percentuais são 46,8%, 41,1% e 11,8%, respectivamente.
De olho nesse protagonismo, os pré-candidatos a presidente em 2026 já articulam suas estratégias no estado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em busca da reeleição, escalou o senador Rodrigo Pacheco para disputar o governo mineiro. A ideia é que Pacheco atue como seu principal cabo eleitoral e ofereça um palanque ao petista. O martelo ainda não foi batido, e aliados do ex presidente do Senado indicam que ele deve aguardar até meados do ano para avaliar a viabilidade da candidatura.
Caso confirme a disputa, Pacheco deverá enfrentar Mateus Simões, sucessor de Romeu Zema no governo do estado e atual governador mineiro. Simões é a aposta de Zema, também pré-candidato a presidente, para que seu grupo político se mantenha no poder. O próprio Zema, por sua vez, é cobiçado por outra legenda: alas do Partido Liberal veem no ex governador de Minas Gerais o nome ideal para compor a chapa de Flávio Bolsonaro como vice presidente.
O ex governador de Goiás Ronaldo Caiado também já move articulações para atrair o eleitorado mineiro. Ainda não há certeza sobre o apoio de Mateus Simões ao nome de Caiado, mas a expectativa é que o presidenciável conte com palanques espalhados pelas prefeituras controladas pelo PSD no estado.
A dança das alianças em Minas Gerais promete ser um dos termômetros mais observados da corrida presidencial que se avizinha.







































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