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Ibiá e São Gotardo decretam emergência econômica no campo diante de prejuízos e queda na rentabilidade

  • há 2 horas
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Municípios do Alto Paranaíba apontam perdas climáticas, aumento dos custos, preços abaixo do necessário e crescimento do endividamento dos produtores. No alho, prejuízos podem chegar a R$ 71,5 mil por hectare.


Imagem ilustrativa gerada a partir da Inteligência Artificial
Imagem ilustrativa gerada a partir da Inteligência Artificial

A crise enfrentada pelo agronegócio no Alto Paranaíba ganhou um reconhecimento oficial em agosto. Os municípios de Ibiá e São Gotardo decretaram situação de emergência econômica no setor agropecuário diante da combinação de perdas nas lavouras, eventos climáticos adversos, aumento dos custos de produção, queda nos preços recebidos pelos agricultores, dificuldades de comercialização e crescimento do endividamento rural.


Em Ibiá, o Decreto Municipal nº 6.993, assinado pelo prefeito Gillianno Mamão em 13 de agosto de 2026, reconhece um cenário de dificuldades acumuladas no campo. O documento considera perdas registradas nas culturas de soja e milho entre 2024 e 2026, além dos impactos provocados por geadas, períodos de seca, granizo, vendavais e chuvas irregulares.


O decreto também leva em consideração os danos provocados pelas fortes chuvas e rajadas de vento registradas nos dias 24 e 25 de julho, que atingiram propriedades rurais do município.


Em São Gotardo, o Decreto nº 263, assinado em 17 de agosto, reconhece dificuldades que atingem diferentes cadeias produtivas. Entre as atividades citadas estão soja, milho, café, alho, cebola, batata, cenoura e pecuária.


Alho concentra uma das maiores preocupações


Entre as atividades afetadas, a produção de alho ocupa posição de destaque. A cultura possui grande importância econômica para São Gotardo e para municípios da região e vem enfrentando um cenário de forte pressão sobre a rentabilidade.

Segundo os dados considerados pelos municípios, o custo de produção de um quilo de alho chega a aproximadamente R$ 16,30 em Ibiá e R$ 13,30 em São Gotardo, enquanto o preço médio recebido pelo produtor estaria em torno de R$ 11 por quilo.

Na prática, isso significa que o agricultor estaria comercializando o produto abaixo do custo de produção, antes mesmo de considerar integralmente outros impactos financeiros da atividade.


As estimativas apresentadas nos decretos apontam prejuízos que podem alcançar R$ 71,5 mil por hectare em Ibiá e R$ 70 mil por hectare em São Gotardo.


A situação do mercado mineiro é confirmada por dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em análise divulgada em julho, a estatal apontou que o preço médio real do alho pago ao produtor em Minas Gerais no primeiro semestre de 2026 ficou 46,4% abaixo do registrado no mesmo período de 2025 e também 33,8% inferior à média real observada entre 2021 e 2025. A Conab destacou ainda que Minas Gerais respondeu por cerca de metade da produção nacional de alho em 2024.


A pressão sobre os produtores também foi discutida em audiência pública realizada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais em São Gotardo, em junho. Representantes dos produtores reivindicaram mudanças nas regras de importação de alho, especialmente diante da concorrência com produtos provenientes da China e da Argentina.


Crise não se limita ao alho


Embora o alho esteja entre os casos mais expressivos, os decretos municipais apontam que o problema é mais amplo.


Em Ibiá, as perdas acumuladas nas culturas de soja e milho são associadas tanto às condições de mercado quanto à ocorrência de eventos climáticos adversos ao longo de diferentes safras.


O cenário ocorre mesmo em um momento em que as projeções nacionais apontam para uma produção agrícola elevada. De acordo com o IBGE, a estimativa de junho de 2026 previa 347,4 milhões de toneladas para a safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas. A soja era estimada em 174,8 milhões de toneladas e o milho em 136,5 milhões de toneladas.


Os números nacionais, porém, não significam necessariamente rentabilidade para o produtor individual. Uma produção maior pode coexistir com margens reduzidas quando os preços de venda não acompanham os custos de sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis, máquinas, mão de obra, energia, armazenagem, transporte e financiamento.


É justamente essa combinação que aparece como um dos principais elementos da crise reconhecida pelos municípios.


Decretos podem ajudar na busca por renegociação de dívidas


Um dos efeitos mais importantes da declaração de emergência é oferecer respaldo documental para que produtores afetados busquem medidas de apoio junto às instituições financeiras e aos órgãos responsáveis pelo crédito rural.


O Manual de Crédito Rural (MCR) prevê a possibilidade de prorrogação de dívidas quando o produtor comprovar incapacidade de pagamento decorrente, entre outras situações, de dificuldade de comercialização dos produtos, frustração de safras por fatores adversos e ocorrências prejudiciais ao desenvolvimento das atividades rurais.


O Banco Central também esclarece que a prorrogação, extensão ou renegociação de uma dívida rural depende do enquadramento nas regras vigentes e da comprovação da incapacidade de pagamento. No caso da renegociação, cabe à instituição financeira analisar o pedido conforme as normas aplicáveis. Portanto, o decreto municipal não perdoa dívidas, não suspende automaticamente cobranças e não garante, por si só, a renegociação dos financiamentos.


O produtor continua precisando apresentar documentação e comprovar individualmente as perdas, a relação dessas perdas com a atividade financiada e a dificuldade de cumprir as obrigações.


Novas medidas federais ampliam possibilidade de composição de dívidas


O cenário ganhou um instrumento adicional em julho de 2026. A Resolução CMN nº 5.330, de 23 de julho de 2026, regulamentou uma linha de crédito rural destinada à composição de determinadas dívidas rurais, além de estabelecer possibilidades de prorrogação para operações enquadradas nas condições definidas pela Medida Provisória nº 1.376/2026.


A norma contempla produtores que atendam a critérios específicos, incluindo casos de perdas em duas ou mais safras e redução mínima de 30% da renda bruta agropecuária esperada, quando as perdas estiverem relacionadas a eventos climáticos extremos ou à redução dos preços de comercialização. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional habilitado.


A existência dessa regulamentação torna ainda mais relevante a documentação das perdas e da situação financeira das propriedades, especialmente para produtores que pretendam buscar enquadramento nas medidas de crédito disponíveis.


Emergência terá duração inicial de 180 dias

Tanto em Ibiá quanto em São Gotardo, os decretos possuem validade inicial de 180 dias. Durante esse período, a declaração poderá servir como instrumento institucional para que os municípios busquem apoio e para que produtores utilizem a situação oficialmente reconhecida como parte da documentação em processos de crédito, prorrogação ou renegociação, quando houver enquadramento nas normas correspondentes.


O reconhecimento municipal, entretanto, não substitui a análise individual de cada propriedade. Para o agricultor, a recomendação é reunir documentos que demonstrem a situação da atividade, incluindo contratos de financiamento, notas fiscais, registros de comercialização, comprovantes de despesas, informações de produtividade, documentos relacionados a perdas climáticas e, quando necessário, laudos técnicos.


Crise expõe desafio para uma das principais regiões agrícolas de Minas


A situação reconhecida por Ibiá e São Gotardo revela um problema que vai além de uma safra específica. A combinação entre clima adverso, custos elevados, preços deprimidos e endividamento pode comprometer a capacidade de investimento dos produtores e afetar toda a cadeia econômica regional.


No caso do alho, a pressão é particularmente evidente. Minas Gerais é um dos principais polos nacionais da cultura, e São Gotardo ocupa posição estratégica nesse sistema produtivo. A queda dos preços e a concorrência com o produto importado aumentam a dificuldade para que o agricultor consiga transformar produtividade em resultado financeiro.


Em Ibiá, a situação reconhecida pelo município também envolve importantes culturas de grãos e os efeitos de diferentes eventos climáticos acumulados nos últimos anos.


A declaração de emergência, portanto, representa mais do que um ato administrativo. É o reconhecimento oficial de que parte do setor produtivo enfrenta uma combinação de fatores que ameaça a capacidade de pagamento e a continuidade das atividades rurais.


Agora, o principal desafio será transformar o reconhecimento da crise em medidas efetivas de apoio, especialmente para que os produtores que comprovadamente sofreram perdas tenham condições de reorganizar suas dívidas, preservar a produção e continuar movimentando a economia do Alto Paranaíba.


Fontes: Prefeituras de Ibiá e São Gotardo, Banco Central do Brasil, Ministério da Agricultura e Pecuária, Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), IBGE e Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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