Cientista brasileira revoluciona tratamento de lesões medulares
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Após décadas de pesquisa, Tatiana Sampaio desenvolve a polilaminina e coloca a ciência nacional no topo do debate global; mas cortes na ciência fizeram o Brasil perder patente internacional da descoberta.

Uma descoberta que levou quase três décadas para ser lapidada nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está mudando a vida de brasileiros e o rumo da medicina regenerativa mundial. A protagonista desse feito é a Dra. Tatiana Coelho Sampaio, cujo nome saltou dos periódicos acadêmicos para as manchetes dos principais telejornais e redes sociais nas últimas semanas.
O motivo do entusiasmo tem nome: polilaminina, uma substância capaz de atuar como uma "ponte" para neurônios em casos de lesões medulares graves. A substância, derivada da placenta humana, tem o potencial para promover a regeneração da medula espinhal e devolver movimentos a pacientes paraplégicos e tetraplégicos. Os estudos investigam como determinadas proteínas podem estimular a reconexão de fibras nervosas lesionadas.
O que é a Polilaminina

A polilaminina é produzida a partir da proteína laminina, componente essencial da matriz extracelular — estrutura que funciona como um “andaime biológico” responsável por organizar e orientar o crescimento das células. No sistema nervoso, a laminina desempenha papel crucial na regeneração de neurônios.
A versão desenvolvida pela equipe da UFRJ atua favorecendo o crescimento e a reconexão de axônios — prolongamentos das células nervosas responsáveis pela transmissão de impulsos elétricos. Em testes experimentais, a substância demonstrou capacidade de estimular a recuperação motora em modelos animais com lesão medular.
Segundo a pesquisadora, os resultados indicam potencial terapêutico significativo, especialmente em casos de lesões traumáticas da medula espinhal, condição que hoje possui opções limitadas de tratamento.
O "Andaime" da Vida: Como Funciona a Descoberta
Diferente de abordagens anteriores que tentavam apenas reduzir a inflamação, a pesquisa de Tatiana Sampaio foca na reconstrução. Em uma lesão medular, forma-se uma cicatriz que impede a passagem de sinais elétricos. A polilaminina entra em cena para mudar esse cenário.
Reconexão: A molécula é uma versão polimerizada da laminina. Ela cria uma estrutura física — um "andaime" — que guia o crescimento dos axônios através da lesão.
Resultados Práticos: Pacientes que antes não possuíam sensibilidade ou controle motor abaixo da lesão começaram a apresentar ganhos significativos. O caso do ex-atleta Bruno Drummond, que recuperou movimentos após o tratamento experimental, tornou-se o símbolo do sucesso da técnica.
Reconhecimento e parcerias

A pesquisa ganhou repercussão nacional e internacional por apresentar uma abordagem inovadora no campo da medicina regenerativa. O projeto conta com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e parceria com o laboratório farmacêutico Cristália, responsável por colaborar no desenvolvimento clínico da substância.
A polilaminina já passou por etapas pré-clínicas e avança dentro dos protocolos regulatórios exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que avalia segurança e eficácia antes de qualquer liberação para uso terapêutico em larga escala.
Do Laboratório para a Prateleira: A Aprovação da Anvisa
O "boom" midiático recente não é por acaso. Em janeiro de 2026, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deu sinal verde para o início da Fase 1 dos ensaios clínicos (Veja o status da pesquisa na tabela abaixo). Este é o passo burocrático e científico mais aguardado, pois permite que o tratamento seja testado em um grupo maior de humanos sob protocolos rigorosos, aproximando a polilaminina de se tornar um medicamento disponível no SUS e na rede privada.
O projeto conta com a parceria do laboratório nacional Cristália, garantindo que a tecnologia, além de brasileira, tenha escala de produção industrial.
Fase | Status | Objetivo |
Pesquisa Básica | Concluída | Desenvolvimento da molécula na UFRJ. |
Testes Pré-clínicos | Concluída | Sucesso em modelos animais e casos isolados. |
Fase 1 (Humana) | Iniciada (2026) | Avaliar segurança e dosagem em humanos. |
Produção Industrial | Em Planejamento | Parceria com o Laboratório Cristália. |
A patente perdida
Apesar dos avanços científicos, a trajetória da polilaminina também expõe os desafios enfrentados pela ciência brasileira. O pedido de patente da substância foi feito em 2007. No entanto, de acordo com Tatiana Sampaio, cortes orçamentários que atingiram universidades federais a partir de 2015 comprometeram a manutenção da proteção internacional da tecnologia.
Sem recursos para custear as taxas necessárias no exterior, o Brasil acabou perdendo a patente internacional da substância. Com isso, empresas estrangeiras podem explorar a tecnologia fora do país sem necessidade de pagamento de royalties à universidade.
A patente nacional, por outro lado, foi mantida e concedida após um longo processo de tramitação. Em entrevistas, a pesquisadora relatou que chegou a utilizar recursos próprios para evitar a perda total da proteção da descoberta.
Impacto dos cortes na ciência
O caso reacendeu o debate sobre o financiamento da pesquisa científica no Brasil. Para Tatiana, a perda da patente internacional simboliza as consequências diretas da redução de investimentos em ciência e inovação.
Especialistas destacam que o registro internacional de patentes é fundamental para garantir competitividade global, atrair investimentos e assegurar retorno financeiro ao país por meio da exploração comercial de tecnologias desenvolvidas em instituições públicas.
Perspectivas futuras
Apesar dos obstáculos, a pesquisa segue avançando. A expectativa é que, caso os estudos clínicos confirmem a eficácia e segurança da polilaminina, o tratamento possa se tornar uma alternativa real para pessoas com lesões medulares — inclusive com possibilidade de futura incorporação ao sistema público de saúde.
A trajetória de Tatiana Sampaio evidencia tanto o potencial transformador da ciência brasileira quanto os riscos associados à falta de investimento contínuo. Entre descobertas promissoras e desafios estruturais, a polilaminina se consolida como um dos projetos mais relevantes da medicina regenerativa desenvolvidos no país nas últimas décadas.









































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